segunda-feira, 21 de março de 2016

Copo do Dia - Os inconsequentes...

Olho para o presente e vejo o passado. E isso faz-me apertar o coração.

Certamente começou o dia, como sempre. Folheou o último jornal impresso em papel (mesmo que seja e-paper) e percorreu-o até à página do obituário. Algo que lhe ficou dos tempos de misógino, decerto.

Sempre foi algo que me impressionou. As nossas conversas,  à volta desse assunto, são difíceis de esquecer. Corriam todas na direcção do mesmo mar:
— Já andas a ver os obituários? Ao menos espera até teres cabelos brancos...
— Epá! Isto agora virou moda?
— O quê? Morrer?
— Mais ou menos isso. 
— Mas estás parvo? Mas porque estás ver isso. É mórbido. E devias estar estudar para o exame de Anatomia II...
— Tenho tempo. Além disso nos enterros há sempre alguém a querer consolo - Dizia com um bizarro orgulho.
— Tu é mesmo um filho da mãe, ao dizeres tal coisa. É momento de respeito.
— Pá, eu vou atrás das vivas, não dos mortos... E os mortos, esses, não se ofendem. Até aposto contigo que se estiverem a ver, até gozam. Sempre seria prova de vida para além da morte.

Sempre fora assim. E pelo que presencio,  sempre seria.

No entanto a sua lógica, por muito falhada, era inatacável.
Ele entendia-o como um serviço público.

Ao fim de um tempo desistíamos de discutir e os rios separavam-se.
Havia que estudar. Tratar dos vivos.

As nossas conversas de café, foram sendo substituídas pelos jantares à base de sandochas no internato. 
Depois foram as especializações a construir barragens.
Os encontros cada vez mais espaçados e com menos tempo.
Estávamos ambos em cirurgia. Em especialidades diferentes.

Da última vez que o encontrei, contava eu já com três filhos dos quais mal sabia o nome e se tinham namoradas ou namorados. 
Tinha também três ex-mulheres, das quais só duas me levaram o couro, o cabelo e o carro da meia-idade.

Hoje, anos após, num dia como qualquer outro, encontrei-o. Na  sala comum.

Ele continuava, sentado a uma mesa, com um par de chávenas cheias de café, intocadas, à sua frente, a ver o obituário…

Vi-o tão velho como eu. Tão gasto como eu. Agarrado a um passado. Tantos anos e ainda se devia sentir um “servidor público”...

Chegara a casar, com uma rapariga que conhecera num funeral. Chegaram a ter filhos. Entretanto, ela morrera. Um deles também. Um acidente qualquer, numa estrada qualquer. Um atentado ou apenas uma incúria deixada da última guerra.

Estivemos todos no funeral. Ele também. Mas era como se não estivesse. Olhava incessantemente para o jornal. Mesmo ali. No funeral da família.

Não percebemos bem o que se passava e apesar da curiosidade, fizemos o oposto do que ele faria. Não o importunamos com isso. Há que haver respeito....

— Então, tantos anos passados e ainda contínuas a olhar para o jornal…

Não obtive resposta.

— Ele não lhe vai responder. — Lançou uma médica, novinha e tão bem feitinha que vontade dava de pecar.
— Então porquê? Já o conheço há anos...
— Ah. Fez o curso com ele. Desconfio que terá muito a contar sobre o meu pai.
— Pai?
— Sim. Francisca Pires – Disse sorrindo.
— Afonso. Afonso Lopes. – Retorqui, com os lábios a ladear dentes com o dobro da idade.
— E o Jaime, o seu pai…
— Fechou-se ao mundo no funeral do meu irmão e da minha mãe. Uma das últimas coisas que fez foi pedir aos meus avós que tratassem de mim. Que me criassem. Depois disso silêncio.
— E o jornal? Esse era um hábito antigo…
— Tem uma das últimas fotografias que tirámos, os quatro. Foi a foto escolhida para o obituário...
Devíamos ter ido. Os quatro. Ainda me lembro mais ou menos da conversa, mesmo sendo pequenina. Há coisas que nunca se esquecem:
— Jaime, tenho de ir a um funeral.
— Vais trocar-me?
— Não tonto. As pessoas morrem.
— Sim, de facto… Mas é algo que as pessoas fazem sem pensar…
— São umas inconsequentes… Já percebi que não vens. Aguentas-te com a pequena?
— Farei o que puder... E não te percas, ok?

A falecida era aparentada num grau tão infinitesimal, que apenas os meus avós sabiam quem era. 
Havia uma noção de que se deviam mostrar o respeito pelos mortos. Nunca soube bem porque o meu pai não foi.

— O seu pai achava tudo isso uma tolice. Que se deviam respeitar os vivos.
— Então continuamos vivos... Por isso... Não deixa de ter a sua ironia. Afinal os meus pais conheceram-se num desses "eventos"…

Senti vergonha…
Fiquei preso no mesmo passado.
Ele agarrado ao amor que partiu e que não podia largar.
Eu agarrado à ideia de um pulha, que afinal, morrera muito antes do que o seu amor.

Morrer é algo que as pessoas fazem sem pensar.
E às vezes respirar não é viver.



(Este texto não tem nada de pessoal, nem tem parecenças com a realidade. Bem... Isso não é bem verdade. Muitos dos melhores com os quais crescemos estão a desaparecer. Isso não quer dizer que não haja  agora ou que irão surgir. Só que estes são especiais...)

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