Hás uns dias, perguntando pela família desconhecida, o meu pai começou uma longa viagem até aos seus avós. Essa viagem longa tinha um motivo. Já raros eram, os momentos de lucidez e menores ainda os momentos em que a memória me traziam até ele.
Na maior parte do tempo eu era um desconhecido afável, em vez do herdeiro genético da maleita que o afectava. Mas isso não era coisa que me preocupasse para já. Queria-o lembrado da sua vida cheia.
Tinha metade da sua idade. Mais três filhas que ele. Mais possibilidade de lhe prover um vida sem preocupação, fosse no seu tempo perdido, fosse no tempo em que vivemos.
Lamentava ouvir repetidas as histórias do sorriso de granito vezes sem conta. Mas lamentava ainda mais não as ouvir nos momentos em que o olhar cheio, se tornava perdido pela doença.
Era um neto a falar com um filho, sobre uma ideia de uma pessoa que existira noutra vida antes de, ou quase, qualquer um de nós. Numa das visitas mais lúcidas, lembrou-se do casamento. Não do meu, mas do seu. Com a minha primeira mãe. Ou melhor a minha madrasta número 1. Contou-me essa memória, como se eu não a conhecesse. Era a primeira mãe que tinha, tendo a minha desaparecido na depressão e nas drogas legais, até se vaporizar na terra de ninguém de que todos somos feitos.
Anabela, a minha mãe de coração, não de sangue, acolheu-me como seu, num casamento em que todos estávamos. Tinha eu 8 anos. Criança pura, adulto em plano, sofrido como um velho.
Como um pai que vê o filho e não se lembra dele.
Foi um dia muito feliz. Para todos. Mas também iria acabar. Algo de que o meu pai não se lembra é das infidelidades. Anabela era fiel. Boa mulher. Excelente mãe. Mas era mulher que precisava mais do que apenas um homem... ou dois, sendo um deles pequeno. Queria ter aventuras. Viver o risco de uma vida. O meu pai fez por não ver as indiscrições. Fez por ignorar. Acho que por minha causa. Mas Anabela ia esticando a corda... Esticando cada vez mais. Até um dia, em que tudo rebentou. Tinha eu doze anos. Chegava da Escola (naquela altura os miúdos podiam ir sozinhos para a escola. E voltar sozinhos). Vejo Anabela a chorar, com as malas à porta. O meu Pai escondia lágrimas, mas levantava a mão como nos filmes, dedo indicador hirto, marcando o destino selado.
Voltariam a ser amantes, alguns anos depois. Mas jamais unidos na mesma casa.
Perdi-a uma segunda mãe, sendo a primeira. Foi duro...
Tive mais duas madrastas. Estas mais fieis ao meu pai. Mais tudo. Menos mães para mim. Era amigas. Mas não eram o apoio nem a mão disciplinadora.
Na verdade, uma delas nem amiga. Apenas uma mulher que se queria insinuar em boas famílias. Uma escaladora social. Enganava-se no poder que via. Apesar de um reputado economista, o meu pai insistia em não se ligar demais à política. E tendo influência, tinha por princípio não a usar. Dizia que o verdadeiro poder está naqueles que não o querem usar. Nunca percebi tal coisa. Mas também nunca tive esse poder.
Acabou por ascender na cama de um qualquer poderoso, após mais um divórcio.
Esta não voltaria a ser amante do meu pai. E em boa verdade, tornou-se amante de todos os outros pais, sem nunca chegar ao topo, escorregando sempre mais um degrau...
o meu pai, reformou-se contragosto da Universidade. Da minha Universidade. Ensinar gerações e gerações de almas os princípios da boa governação era um prazer. E uma responsabilidade. E por isso acho que nunca se perdoou ter dado passagem por favor a um tal marmanjo que fora o primeiro ministro a arruinar um país governando pelo uso da literatura económica. Acho que foi aí que o meu pai começou a ter problemas. Sentia-se culpado pelo mundo que ajudara a criar. sem que isso fosse realmente culpa dele. E queria esquecer essa responsabilidade.
Disse-lhe mil vezes que nada disto era previsível. Que um gesto de boa venturança não poderia ser causa de tanto mal. Respondia-me que não há boa acção que não tenha um castigo associado.
No seu último ano de ensino, visitava-o mais. Quando podia. Preocupava-me. Já me tinha formado. Seguia-lhe as pisadas no ensino. Era Assistente do curso de Gestão. Era um puto de fato. Bem apessoado, mas imberbe e convencido de ter a verdade no bolso. Num desses último dias, entro e sento-me na sala. Era um anfiteatro. Cheio, por sinal.
Olhei em redor. Na primeira fila, estava uma giraça de cabelo moreno, comprido. Quando falava, ou perguntava, a sua voz era melodiosa, se bem que subia uma oitava de vez em quando. Senti-me puxado para ela, sem lhe ter visto a cara.
No fim da aula, fui ter com o meu Pai. Sentia-lhe a voz cansada ao longe. queria vê-la ao perto.
Quando cheguei, depois de cautelosamente descer a escadaria, essa morena estava de volta do meu velho. Era uma jovem de rosto ainda limpo. Se tinha rugas, escondia-as com um sorriso. Fiquei cativado naquele momento. Pendurados num limbo facial, ficavam dois lagos verdes, separados por um nariz delicioso.
Apresentou-se. Era Sofia. Era uma nova aquisição para o corpo docente. Ou seria. Ainda não havia sido apresentada. Fiquei espantado.
Emiti um " Não me parece que pareça ter idade para ser..."
"Pois não nem você" retorquiu.
Era respondona a menina.
1 ano depois, estava grávida da Catarina. E eu, de braços em redor.
O meu pai lembrou-se desta história, quando lhe lembrava ser seu filho.
Lembrou-se dos netos, antes de se perder, novamente, na memória do granito feito sorriso.
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