quarta-feira, 8 de abril de 2015

Copo do dia - A mentira pegada

Conheci o Francesco há mais de uma década. Nunca me foi uma figura muito próxima, nem muito longínqua. Admirava a sua arte e a presença. Era um cinéfilo, melómano, ávido leitor, tentador fotógrafo, mas também um misógino gay. Para o mais banal dos humanos esta combinação circularia entre o muito interessante ou muito repelente, consoante a carga das convicções amorais que cada um de nós carrega. No que me diz respeito, olhava para ele com a simpatia com que olhamos para os defeitos nossos no espelho e não com a antipatia com olhamos para os nossos defeitos nos outros. Francesco era um homem. Disso não tenho dúvidas. Mas também gostava de homens. O que não fazia dele menos homem. Aliás uma despudorada bicha, disse-lhe uma vez que ele, gay era uma vergonha, porque não assumia o seu verdadeiro ser. Francesco demonstrou-lhe o seu verdadeiro lado, pelo menos mais adequado. Conteve-ve para não ir à fuça, proferiu alguns impropérios dignos de um trolha das obras, terminando, com o comentário mais machista gay possível: “Queres mas é… minha … apan…”
Francesco, misógino, gay, culto, foi naquele momento a mais peixeira das peixeiras com barba… Se alguma vez houve disso.
Posso ser gay dizia ele Mas nunca serei aquilo…
Concebo que seria a sua própria intolerância, digna de qualquer “mainstream” vivente, que falava assim, dos que viviam à margem do pensamento das pessoas conservadoras.
Sim, Francesco era um devoto conservador. Visitante regular da Igreja, amigo do Padre, que não o excomungava por partilhar da Fé no amor entre todos os seres, em detrimento de alguns ensinamentos mais retrógrados.
Francesco era um pilar da comunidade, que andava atrás de outros pilares, com uma assustadora frequência.
Disse–me certa vez que se os marinheiros tinham uma miúda em cada porto, ele tinha um marinheiro. Era maneira masculina de dizer eu sou muito macho, porque tenho outros machos. o que convenhamos que para um homem que gosta de mulheres, fazendo o mesmo tipo de vã glorificação (nem sabes quem ando a comer….) , era ainda assim estranho.
Francesco gostava…não, amava viajar. Já estivera em todas as “photo ops”, encostara-se a todas as obras, construções, edificações, esculturas e portentos naturais feitos carne e osso… Mas havia outros locais que lhe faziam espécie. Aqueles que olhavam para uma pessoa normal como ele, que tendo por único defeito amar a sua espécie, ser excomungado civilmente, condenado a uma existência pária ou mesmo encarcerados.
Não sendo um grande activista, ainda assim não deixava de se sentir revoltado e com vontade de um bruto homem de ir ao focinho a um qualquer quer desses “filhos de uma grande…” Como fazia por referir junto do público feminino que o adorava, apesar de dever muito à beleza e nada à Inteligência.
Francesco era feio como um tomada antiga na parede, mas tinha um bom gosto digno do melhor prato, chefe ou alfaiate. Pior. Tinha as posses para o demonstrar.
Francesco, tinha ainda mais uma idiossincrasia.
Chamava-se Abílio Manuel, que não era nome de "bon vivant", sobretudo com as suas qualidades.
E por isso adoptara a "personna" de Francesco. Um pseudo italiano, cinéfilo, melómano, ávido leitor, tentador fotógrafo, mas também um misógino gay…
Mas também uma mentira pegada.
Sobretudo para ele.

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