Conheci
o Francesco há mais de uma década. Nunca me foi uma figura muito próxima, nem
muito longínqua. Admirava a sua arte e a presença. Era um cinéfilo, melómano, ávido
leitor, tentador fotógrafo, mas também um misógino gay. Para o mais banal dos
humanos esta combinação circularia entre o muito interessante ou muito
repelente, consoante a carga das convicções amorais que cada um de nós carrega.
No que me diz respeito, olhava para ele com a simpatia com que olhamos para os
defeitos nossos no espelho e não com a antipatia com olhamos para os nossos
defeitos nos outros. Francesco era um homem. Disso não tenho dúvidas. Mas
também gostava de homens. O que não fazia dele menos homem. Aliás uma despudorada
bicha, disse-lhe uma vez que ele, gay era uma vergonha, porque não assumia o
seu verdadeiro ser. Francesco demonstrou-lhe o seu verdadeiro lado, pelo menos
mais adequado. Conteve-ve para não ir à fuça, proferiu alguns impropérios
dignos de um trolha das obras, terminando, com o comentário mais machista gay
possível: “Queres mas é… minha … apan…”
Francesco,
misógino, gay, culto, foi naquele momento a mais peixeira das peixeiras com
barba… Se alguma vez houve disso.
‒
Posso ser gay ‒ dizia ele ‒
Mas nunca serei aquilo…
Concebo
que seria a sua própria intolerância, digna de qualquer “mainstream” vivente,
que falava assim, dos que viviam à margem do pensamento das pessoas conservadoras.
Sim,
Francesco era um devoto conservador. Visitante regular da Igreja, amigo do
Padre, que não o excomungava por partilhar da Fé no amor entre todos os seres,
em detrimento de alguns ensinamentos mais retrógrados.
Francesco
era um pilar da comunidade, que andava atrás de outros pilares, com uma
assustadora frequência.
Disse–me
certa vez que se os marinheiros tinham uma miúda em cada porto, ele tinha um
marinheiro. Era maneira masculina de dizer eu sou muito macho, porque tenho
outros machos. o que convenhamos que para um homem que gosta de mulheres, fazendo
o mesmo tipo de vã glorificação (nem sabes quem ando a comer….) , era ainda assim
estranho.
Francesco
gostava…não, amava viajar. Já estivera em todas as “photo ops”, encostara-se a
todas as obras, construções, edificações, esculturas e portentos naturais
feitos carne e osso… Mas havia outros locais que lhe faziam espécie. Aqueles
que olhavam para uma pessoa normal como ele, que tendo por único defeito amar a
sua espécie, ser excomungado civilmente, condenado a uma existência pária ou
mesmo encarcerados.
Não
sendo um grande activista, ainda assim não deixava de se sentir revoltado e com
vontade de um bruto homem de ir ao focinho a um qualquer quer desses “filhos de
uma grande…” Como fazia por referir junto do público feminino que o adorava,
apesar de dever muito à beleza e nada à Inteligência.
Francesco era feio como um tomada
antiga na parede, mas tinha um bom gosto digno do melhor prato, chefe ou
alfaiate. Pior. Tinha as posses para o demonstrar.
Francesco, tinha ainda mais uma idiossincrasia.
Chamava-se Abílio Manuel, que não
era nome de "bon vivant", sobretudo com as suas qualidades.
E por isso adoptara a "personna" de
Francesco. Um pseudo italiano, cinéfilo, melómano, ávido leitor, tentador fotógrafo,
mas também um misógino gay…
Mas também uma mentira pegada.
Sobretudo para ele.
Sobretudo para ele.
Sem comentários:
Enviar um comentário