terça-feira, 21 de abril de 2015

Copo do dia - "O Continente Desconhecido"

O meu Avô era um fascista democrático. Achava que a Raça Portuguesa era superior, mas que todos os outros mereciam ascender ao nosso patamar... Era uma espécie de ditador iluminado, sem ditadura e mais tarde na vida, apenas dentadura. olhava para o futuro com a desconfiança de que nele tudo seria pior. Era um continente desconhecido que não tinha vontade de explorar, contrariando a boa raça portuguesa.

O meu avô tinha 4 vezes mais anos que eu. E sentia que ele me ia sobreviver, baseando-me na noção de que vaso ruim não quebra. E o homem era mais do que ruim. Faziam inveja aos Beras. Era duro como granito, de palavra pesada como chumbo e língua afiada não como sabre, mas como mulher coscuvilheira.

No tempo dele, que curiosamente ainda era o mesmo tempo que o meu, tudo fora melhor. Vivia-se como Reis descalços na rua. Circulavam pela ruas carros e carrinhos para todos os gostos, e os engarrafamentos aconteciam em frente às casas dos cafés, recheadas de um odor cafeínico e a doces de fazer buracos nos dentes a serem curados ou arrancados pelo carniceiro barbeiro cirurgião-dentista.

Ah sim, esses é que foram bons tempos. Bons caminhos para a alma dura do meu avô. 
A casa que herdei por breves momentos, ali na Calçada da Palma, onde mais tarde viria a encontrar a mãe dos filhos que iria ter, estava prestes a arruinar-se como dentes embebidos em torrão de Alicante ou rebuçados de pinhão de Badajoz, delícias de um tempo em que o "El Corte Inglês" era um mito e não apenas mais uma loja. 

Era uma sobra de um lar, que já fora local de brincadeira nos almoços da família , feitos religiosamente ao Domingo, sempre com muita carne na mesa, pão e vinho igualmente. Era uma gritaria organizada, que registava o único sorriso do meu avô. Era adorava o caos, por ele ordenado. E não era difícil soçobrar perante a dureza do granito e língua afiada.

A minha avó por seu lado era de raiz suíça. Ou melhor Pastelaria Suíça. Passava os seus finais de tarde solarengos, depois de sair do serviço (onde era secretária, uma das poucas profissões respeitáveis naqueles anos, para uma senhora de família isto é) e deliciava-se com os cheiros abaunilhados e caramelizados. Comprava, uma vez por semana, dois bolos. Um para ela e outro para o meu avô. 
Era o seu doce do dia. 
De fim de dia doce.

O meu Avô gostava de imitar Pessoa vestido, mas escrevendo alguns impropérios dignos de Bocage. Assumia-se como nome maior da língua, mesmo que ninguém lhe reconhecesse nem obra nem palavras suficientes. Mas fazia sucesso com as meninas. Corria, mau grado para minha avó, que algumas delas eram mais do que objecto de escrita, mas também mesas e papel, onde escrevia com a sua caneta (ou outra coisa) belos contos de escárnio e mal dizer, ou romances de cordel. A minha avó aguentava esses doces sem açúcar, enquanto ele voltasse para casa e pagasse as contas dos miúdos (entre eles o meu Pai). 
O meu Avô era fiel à sua maneira.  
A minha avó também.

O sorriso do meu avô, feito granito e língua afiada, excepto o que surgia ao domingo, desfez-se com a morte do seu amor verdadeiro. Ali perdeu o gosto de escrever, em página própria ou alheia. Perdeu o sorriso. Fora uma ou duas vezes por cada domingo em que dizia um tolice propositadamente para o fazer rir.

Eu gostava daquele velho...
E agora que estou quase na idade dele, honro-o tendo um sorriso de granito feito e língua romba como uma mulher.

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