segunda-feira, 1 de abril de 2024

O sorriso que nunca o foi

Não sorrias, quando te vi pela primeira vez.

Sei que o imaginei.

Foi ilusão contínua, durante anos.

Sentia-o ali, ao tocar de lábios.

Mas os meus olhos, cegos pela ilusão, viam o que não estava.

Chamei-lhe várias coisas.

Vários nomes.

Dei-lhe vários corpos.

Afinal o teu sorria, ao ver-me,

como o meu sentia e respondia.

Afinal o sorriso nunca o fora.

A ilusão real.

A decepção completa.

O sorriso era a pena e  o reflexo do que queria ver  em ti,

Mas que tu não sabias sequer o que era.

Não querias saber.

Vivias a tua vida comigo,

Com a tolerância de quem não quer estar.

Beijavas com a passividade de quem finge,

Deste-me o teu corpo como cedência a uma invasão.

E depois, depois…

Nada era…

Nem aqui, nem na Lua,

Que por tua passava.

Cansada de fingir um dia,

Fugiste vários sóis depois.

E eu fiquei à espera do sorriso.

Daquele que, mesmo fingido,

Me aconchega nas noites frias.

Descobri depois,

Tão depois que nem o teu nome era meu.

Que nem os teus olhos, me viam.

Nem o teu toque existia,

 Como memória falsa,

 criada pela mente para preencher o vazio.

Sempre foste assim,

Sempre partiste assim.

Porque me não me podias dar o que eu queria,

Ou não te dava o que querias,

Pois fui quem te levantou,

E quem te atirou ao chão.

Sou o culpado do mundo, de todos os mundos e nosso também.

Acabo a pensar, sem pena minha,

Se serei demasiado para todos os sorrisos que passam por mim.

Ou simplesmente, os sorrisos que passaram por aqui,

Não se viam ao espelho?

Sem comentários:

Enviar um comentário