Não sorrias, quando te vi pela primeira vez.
Sei que o imaginei.
Foi ilusão contínua, durante anos.
Sentia-o ali, ao tocar de lábios.
Mas os meus olhos, cegos pela ilusão, viam o que não estava.
Chamei-lhe várias coisas.
Vários nomes.
Dei-lhe vários corpos.
Afinal o teu sorria, ao ver-me,
como o meu sentia e respondia.
Afinal o sorriso nunca o fora.
A ilusão real.
A decepção completa.
O sorriso era a pena e o reflexo do que queria ver em ti,
Mas que tu não sabias sequer o que era.
Não querias saber.
Vivias a tua vida comigo,
Com a tolerância de quem não quer estar.
Beijavas com a passividade de quem finge,
Deste-me o teu corpo como cedência a uma invasão.
E depois, depois…
Nada era…
Nem aqui, nem na Lua,
Que por tua passava.
Cansada de fingir um dia,
Fugiste vários sóis depois.
E eu fiquei à espera do sorriso.
Daquele que, mesmo fingido,
Me aconchega nas noites frias.
Descobri depois,
Tão depois que nem o teu nome era meu.
Que nem os teus olhos, me viam.
Nem o teu toque existia,
Como memória falsa,
criada pela mente
para preencher o vazio.
Sempre foste assim,
Sempre partiste assim.
Porque me não me podias dar o que eu queria,
Ou não te dava o que querias,
Pois fui quem te levantou,
E quem te atirou ao chão.
Sou o culpado do mundo, de todos os mundos e nosso também.
Acabo a pensar, sem pena minha,
Se serei demasiado para todos os sorrisos que passam por
mim.
Ou simplesmente, os sorrisos que passaram por aqui,
Não se viam ao espelho?
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