Ontem
passei por uma garrafa de vinho, cujo rótulo interessante, satiricamente
desenhado, colocava Santa Engrácia, ou seja, o Panteão Nacional e a Ponte 25 de
Abril, na mesma imagem, olhando para Este.
Uma
liberdade artística para turista ver. Ou para alguém que não vive em Lisboa. Ou
não conhece os locais, o que é completamente verosímil.
Muito
de nós nem se conhecem, quanto mais a uma cidade onde só habitam.
A
delícia do desconhecimento é a descoberta. E há quem passe pela vida agredindo
quem quer descobrir.
Há
quem distribua crueldade ou indiferença, que podem ser a mesma coisa,
dependendo do contexto, como se fosse o simples acto de existir.
Há
quem exista, sem querer mais do que ter o sossego de 2 minutos sentado sem
ruído de fundo, sozinho nos seus pensamentos à espera de que lhe ocorra a
resposta que a indiferença merece.
Há
quem olhe para essa indiferença e pense como chegámos aqui? Que aconteceu para
que isto fosse assim?
Quem
sou eu para tanto empenho? Sim, é preciso empenho para ser-se indiferente. Não
há esforço mais inglório do que fingir ser indiferente. Até porque anunciar
essa indiferença é denunciar esforço.
Confesso
que me chateia.
Mas
há-de ser realmente indiferente. Sem esforço. Sem pensar nisso. Sem precisar de
fazer pose. De fazer o que for... Será respirar, sem sequer ser fundo.
Ser
indiferente requer um esforço indiferente.
Viver
em Lisboa, requer esforço. Assim como viver em qualquer outro lugar.
Requer
o olhar atento para a riqueza que se esconde. E para ser indiferente à
degradação humana.
Aos
que não têm tecto, que nos incomodam, tanto como nós lhes somos indiferentes.
Fingimos
nós ser o que eles sentem sermos para eles. Excepto quando qualquer um de nós
precisa do outro.
E
nós precisamos do outro, sempre. Essa necessidade contacto humano, universal.
De um olhar. De uma atenção.
De
um cravo na lapela. De uma liberdade que não reconhecemos. De um protesto que
podemos fazer. De um voto desperdiçado nos que furam e afundam nau livre.
Já
passei pelo vinho, pelo amor e indiferença, pela cidade atrapalhada...
Sim
passei pelo amor, como se ele me visse? Não deste conta?
Foi
delicioso. Foi um acto de abrir a garrafa e cheirar um vinho, bom e mau.
Um vinho que partilhava contigo, a quem sou indiferente.
Mas
não me sou indiferente e na realidade é isso que é real.
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