Hoje, estou a selar um envelope.
A fechar uma vida entre duas folhas de papel.
A deixar que a memória fique entalada entre as boas
intenções e o amor que já não está ali.
Gostava, queria, almejava, desejava que tudo tivesse sido
diferente. Mas fomos dois diferentes que acabaram por deixar de estar na mesma
página.
Tudo agora são as contas que a vida fez.
As noites que estão sozinhas, porque nelas já não durmo.
Os dias que se sentem abandonados, porque passo por eles,
como se não estivessem lá.
Hoje, parece-me, sinto o coração pesado. O Ar carregado. Nem o
ânimo do sol me deixa feliz.
Ainda aprecio a beleza. Amo a luz. Desejo mostrar ao mundo
essa alegria. Mas hoje, até sair de uma casa que não sinto minha, custou-me.
Imagino um dia, amanhã, que esta tristeza opaca, que vou
escondendo de vez em quando deixa de ser um peso, para ser uma lembrança.
Quero um dia próximo sentir Sol e dizer que me lembro de o
gozarmos. De o sentirmos. De que a memória estava limpa da mágoa que não está
aqui comigo.
Não tenho vida para tê-la. Tenho vida para refazer.
Para reerguer… Não para esse sentimento que arrasta o humor.
Não quer dizer que o meu direito absoluto de me sentir triste,
não deva ser usado quando óbvio. Apenas quer dizer que o direito não faz com
seja o caminho.
E gostava de ver se o caminho terá destino.
Mas não.
Não sei para onde vai.
E se não for, não saberei para onde foi.
Nessa altura a
única tristeza que terei, pela noite ausente e pelo dia esquecido, será da vida
que deixei, sem respirar.
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