Há um prazer indescritível em
escrever com pena e papel.
Ou melhor, é descritível.
É descrito no próprio
acto. Embora agora a única caneta que toco é aquela que escreve com a
imaginação, imagino-a a borrar um pouco a página deixando-me algo desagradado
pelo imprevisto.
Por
outro lado, esse borrão obriga-me a reescrever noutra página imaginária, se
calhar, o que sempre quis.
A
caneta que escreve fá-lo sem pretensão, sendo apenas instrumento de génios (e
outros não...). Mas apenas o pretensioso acha que as palavras lhe pertencem,
que as domina e que o pulso delas, é o seu. Esta pessoa não escreve.
Demonstra, no papel, o seu ser.
Escrever não é isso. (Ou também é?).
Seja
pelo facto ou pelo imaginado, tudo o que se passa no bico de uma esferográfica
ou no aparo de uma caneta, é a visão de um mundo que temos atrás dos nossos
olhos. Esse mundo deve ser dado a conhecer, não imposto. Deve ser uma dádiva,
tanto para quem dá, como para quem recebe. E pelo qual não devemos esperar o
elogio.
Os bons escritores escrevem para tocar pessoas. Seja pelas histórias ou pelo que despertam. Não para imporem regras ou um rumo, mas para, pela imaginação, as tocar. E assim, sem pudor, somos o que fazemos: Pessoas.
Há quem escreva mundos e espere estátuas. Há quem escreva para o mundo e espere um sorriso.
Conheci muitos escritores, direi mesmo autores, na minha curta estadia. Li-os. Mas também falei com eles. Em todos os verdadeiros escritores, havia a preocupação de contar uma história, não para um futuro, mas para um passado. Se almejavam algum reconhecimento? Sim, um pouco!
Riqueza? Só de espírito!
Escrever com alma? Todos os dias.
Invejam
muitas vezes os técnicos da escrita. Aqueles que faziam páginas imensas de
texto, muitas vezes apenas para denegrir ou, nem sequer isso, apenas para fazer
palha para ser adquirida.
Não
invejavam a produtividade.
Invejavam a vida mais fácil.
Uma vida sem a constante
tortura de contar os tostões ou os minutos até os miúdos voltarem da
escola.
Não invejam as páginas cheias de tinta.
Apenas o tempo.
Nem
sequer o dinheiro, porque tal não era importante...
Essa tortura de alma, pela
inveja mais inocente que concebo, era o âmago da sua honestidade intelectual.
Sabiam que cada folha, repositório final da vida de um qualquer pinheiro ou
eucalipto, merece mais do que palavras saídas em raiva ou código de máquina de
escrever com coração empedernido, à procura da trama mais complexa para perder
o rumo de quem compra, mas não sente.
Os autores querem que quem os lê, sinta.
Porque só isso lhes dá sentido.
Porque
há um sacrifício no acto de escrever e cada letra é uma vida que se perdeu num
manto branco.
Escrever... É um privilégio.
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