quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Copo do Dia - Prazer de escrever

Há um prazer indescritível em escrever com pena e papel.  
Ou melhor, é descritível. 
É descrito no próprio acto. Embora agora a única caneta que toco é aquela que escreve com a imaginação, imagino-a a borrar um pouco a página deixando-me algo desagradado pelo imprevisto.
Por outro lado, esse borrão obriga-me a reescrever noutra página imaginária, se calhar, o que sempre quis. 
A caneta que escreve fá-lo sem pretensão, sendo apenas instrumento de génios (e outros não...). Mas apenas o pretensioso acha que as palavras lhe pertencem, que as domina e que o pulso delas, é o seu. Esta pessoa não escreve. Demonstra, no papel, o seu ser. 

Escrever não é isso. (Ou também é?). 

Seja pelo facto ou pelo imaginado, tudo o que se passa no bico de uma esferográfica ou no aparo de uma caneta, é a visão de um mundo que temos atrás dos nossos olhos. Esse mundo deve ser dado a conhecer, não imposto. Deve ser uma dádiva, tanto para quem dá, como para quem recebe. E pelo qual não devemos esperar o elogio.

Os bons escritores escrevem para tocar pessoas. Seja pelas histórias ou pelo que despertam. Não para imporem regras ou um rumo, mas para, pela imaginação, as tocar. E assim, sem pudor, somos o que fazemos: 
Pessoas.

Há quem escreva mundos e espere estátuas. Há quem escreva para o mundo e espere um sorriso.

Conheci muitos escritores, direi mesmo autores, na minha curta estadia. Li-os. Mas também falei com eles. Em todos os verdadeiros escritores, havia a preocupação de contar uma história, não para um futuro, mas para um passado. Se almejavam algum reconhecimento? Sim, um pouco! 
Riqueza? Só de espírito! 
Escrever com alma? Todos os dias.
Invejam muitas vezes os técnicos da escrita. Aqueles que faziam páginas imensas de texto, muitas vezes apenas para denegrir ou, nem sequer isso, apenas para fazer palha para ser adquirida.
Não invejavam a produtividade. 
Invejavam a vida mais fácil. 
Uma vida sem a constante tortura de contar os tostões ou os minutos até os miúdos voltarem da escola. 

Não invejam as páginas cheias de tinta. 
Apenas o tempo. 
Nem sequer o dinheiro, porque tal não era importante... 
Essa tortura de alma, pela inveja mais inocente que concebo, era o âmago da sua honestidade intelectual. 
Sabiam que cada folha, repositório final da vida de um qualquer pinheiro ou eucalipto, merece mais do que palavras saídas em raiva ou código de máquina de escrever com coração empedernido, à procura da trama mais complexa para perder o rumo de quem compra, mas não sente. 

Os autores querem que quem os lê, sinta. 
Porque só isso lhes dá sentido. 

Porque há um sacrifício no acto de escrever e cada letra é uma vida que se perdeu num manto branco. 


Escrever... É um privilégio.

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