domingo, 14 de junho de 2015

Copo do dia - Mensagens de pessoas que não existem

Maria recebeu uma mensagem matinal dando-lhe conta do falecimento do Alberto.
O único problema é que ela não conhecia Alberto algum.
Maria era uma mulher curiosa. Tão curiosa como um cão perante uma caixa fechada. Assim, armada em perdigueiro, tentou perceber quem era o Alberto. Não o fez pelo caminho mais óbvio, que seria responder à mensagem da pessoa que lhe remetera tal aviso. Não podia dar parte de fraca e como tal decidiu começar a telefonar ao seu grupo inestimável de “amigas” do trabalho, uma verdadeira fonte de conhecimento sobre as vidas alheias, sobre quem seria o Alberto.

Duas horas de conversa, dez rumores novos, três possíveis gravidezes e dois romances com uma chefia qualquer, salpicados com uma possível infidelidade e uma incoerência qualquer em termos de trabalho, um trabalho qualquer que deveria ter sido feito.

A verdade é que todos os Albertos estavam vivos… Aliás, apenas um, existia.
O mistério mantinha-se. Maria, tentou lembrar-se se teria conhecido algum nas suas saídas nocturnas… Se existiria algum nas suas conquistas… Não. Alberto era nome que não a seduzia e quem o trouxesse consigo não faria nada consigo.
Maria destacava-se do seu grupinho, por ser uma atípica mulher. Bem-feita, loira de olho azul. Voz suja, digna de cantar um jazz qualquer mais soturno e pesado e que, completando o estereótipo, tinha um enorme espaço para arrendar no topo do pescoço…
Confessa que o faz de propósito…
Não sabemos bem se é verdade. A sua “entourage”, aquela que vive do chamariz que Maria é, ou seja as morenas, todas elas mulheres completas e com mais charme, acaba por viver as consequências da “Trash culture”…
É bonito, vende-se! Não seduz num olhar, não presta.
Teresa, uma das morenas, foi a primeira vítima do questionário de Maria. Depois foi a Maria, a n.º 2, a Fátima, a Isabel, a Sofia, etc…
Nenhuma delas sabia ou reteve os restos do tubarão Maria que passava pelos homens, como pelas dietas milagrosas.
E de todas elas ouviu o mesmo conselho. “ Se não sabes quem é, responde à mensagem…”
Maria ainda tentou falar com ex-paixões e conquistas que, por razões que lhe escapavam, (mas não a eles) não queriam falar.
Sem outro recurso, respondeu à mensagem, quase um dia depois…
A resposta foi lacónica. Alberto fora o seu primeiro namorado. Aquele que ela invocava ser o padrão de toda a sua existência amorosa…
O problema foi o mais inverosímil. Não se lembrava do seu nome, apenas de que o amava. Perdidamente…
Quando tentou explicar tudo isto à sua melhor “amiga”, a Ana, esta olhou para ela como se Maria fosse portadora de uma pestilência…
Não lhe fazia sentido que um nome invocado mil vezes em mil dias fosse esquecido… A não ser que fosse uma mentira… E havendo uma mentira, o isco que era Maria, deixava de ser apetecível, para ser apenas fútil…
O isco que se usa, determina o peixe que se apanha.
O mundo de Maria perdia, ali, a sua primeira estrela.
As outras não tardariam a perder-se…
E, subitamente no escuro, trocando as companhias que atraí na noite, pela solidão que sente com elas, o espaço vazio em cima da cabeça fica repleto das memórias esquecidas…
E no dia seguinte ao funeral, tardiamente, chega a uma campa rasa, onde perdura um nome que amou e esqueceu, usando-o como desculpa para fugir da vida.
Maria morreu no mesmo dia que Alberto. Não o sabia ainda. Morreu a “femme fatale”, a caçadora, o tubarão em duas pernas…


E nesse vazio, que é o fim, encontrou-se!

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