Maria
recebeu uma mensagem matinal dando-lhe conta do falecimento do Alberto.
O
único problema é que ela não conhecia Alberto algum.
Maria
era uma mulher curiosa. Tão curiosa como um cão perante uma caixa fechada. Assim,
armada em perdigueiro, tentou perceber quem era o Alberto. Não o fez pelo
caminho mais óbvio, que seria responder à mensagem da pessoa que lhe remetera
tal aviso. Não podia dar parte de fraca e como tal decidiu começar a telefonar
ao seu grupo inestimável de “amigas” do trabalho, uma verdadeira fonte de
conhecimento sobre as vidas alheias, sobre quem seria o Alberto.
Duas
horas de conversa, dez rumores novos, três possíveis gravidezes e dois romances
com uma chefia qualquer, salpicados com uma possível infidelidade e uma incoerência
qualquer em termos de trabalho, um trabalho qualquer que deveria ter sido feito.
A
verdade é que todos os Albertos estavam vivos… Aliás, apenas um, existia.
O
mistério mantinha-se. Maria, tentou lembrar-se se teria conhecido algum nas
suas saídas nocturnas… Se existiria algum nas suas conquistas… Não. Alberto era
nome que não a seduzia e quem o trouxesse consigo não faria nada consigo.
Maria
destacava-se do seu grupinho, por ser uma atípica mulher. Bem-feita, loira de
olho azul. Voz suja, digna de cantar um jazz qualquer mais soturno e pesado e
que, completando o estereótipo, tinha um enorme espaço para arrendar no topo do
pescoço…
Confessa
que o faz de propósito…
Não
sabemos bem se é verdade. A sua “entourage”, aquela que vive do chamariz que
Maria é, ou seja as morenas, todas elas mulheres completas e com mais charme,
acaba por viver as consequências da “Trash culture”…
É
bonito, vende-se! Não seduz num olhar, não presta.
Teresa,
uma das morenas, foi a primeira vítima do questionário de Maria. Depois foi a
Maria, a n.º 2, a Fátima, a Isabel, a Sofia, etc…
Nenhuma
delas sabia ou reteve os restos do tubarão
Maria que passava pelos homens, como pelas dietas milagrosas.
E
de todas elas ouviu o mesmo conselho. “ Se não sabes quem é, responde à
mensagem…”
Maria
ainda tentou falar com ex-paixões e conquistas que, por razões que lhe
escapavam, (mas não a eles) não queriam falar.
Sem
outro recurso, respondeu à mensagem, quase um dia depois…
A
resposta foi lacónica. Alberto fora o seu primeiro namorado. Aquele que ela
invocava ser o padrão de toda a sua existência amorosa…
O
problema foi o mais inverosímil. Não se lembrava do seu nome, apenas de que o amava.
Perdidamente…
Quando
tentou explicar tudo isto à sua melhor “amiga”, a Ana, esta olhou para ela como
se Maria fosse portadora de uma pestilência…
Não
lhe fazia sentido que um nome invocado mil vezes em mil dias fosse esquecido… A
não ser que fosse uma mentira… E havendo uma mentira, o isco que era Maria, deixava
de ser apetecível, para ser apenas fútil…
O
isco que se usa, determina o peixe que se apanha.
O
mundo de Maria perdia, ali, a sua primeira estrela.
As
outras não tardariam a perder-se…
E,
subitamente no escuro, trocando as companhias que atraí na noite, pela solidão
que sente com elas, o espaço vazio em cima da cabeça fica repleto das memórias
esquecidas…
E
no dia seguinte ao funeral, tardiamente, chega a uma campa rasa, onde perdura
um nome que amou e esqueceu, usando-o como desculpa para fugir da vida.
Maria
morreu no mesmo dia que Alberto. Não o sabia ainda. Morreu a “femme fatale”, a
caçadora, o tubarão em duas pernas…
E
nesse vazio, que é o fim, encontrou-se!
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