quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Copo do Dia - Os Patudos

Estou em férias. 
De férias. 
Imbuído delas. 
Recolhi-me a uma casa de família na província. 
Contesto esse epíteto. 
Também Lisboa é província dela própria. Não é mais cosmopolita por ter mais turistas. Sobretudo quando o tido como típico e tradicional é a música mais bimba, podenga e  brejeira possível. Provoca-me vernacularidade que isso seja vendido como o "ser" português. 

Estou na província.

Nas festas da cidade e do prato típico, onde apenas as crianças dançam ao som da música rascante e admiram-se de mais ninguém dançar. Em cima do palco, falta o talento, a coordenação e a imaginação.

São festas de aldeia ou de cidade de província. São as festas do Hipermercado, com os cantores plagiadores. Aqueles que são família, que concorrem para o mesmo mercado das filhas e mães mal-amadas pelos homens e pelas outras, que procuram conforto no mundo de contos de "fardas", em que tudo é para elas.

Somos um país provinciano. 
E a província ainda é mais provinciana. 
Vejo as pessoas ajudarem-se sem nada pedir. 
E mesmo quando pedem não ofende a honra e a justiça. Há entreajuda. Há famílias, mesmo que sejam uns chatos.

Os amigos, são amigos. Não são apenas para as ocasiões.

Lisboa, devia ser ainda mais provinciana.

Nas deambulações que fui fazendo, cruzei-me com as terras esquecidas e os benfeitores conhecidos, sem que o nome seja lembrado pelos metropolitas.

Acabei sem pensar muito por ser guiado pela "Casa dos Patudos", pertença antiga de um senhor desconhecido para muitos, E confesso que para mim também. Desconhecido na sua dimensão de homem da política e da cultura. 
Porque já esqueci mais do que gostaria (e isso é um problema, não de arrogância, mas de memória).

Entro numa casa desenhada por um arquitecto de renome (português), construída longe da capital, facilmente invejada por ela.
Foi habitada por gente de sangue Real, sem por isso deixar de ser republicana. Casa cheia história da família. De música. De livros. Conseguidos quando tinham valor. Quando apenas os melhores de nós chegavam ao prelo.
Casa cheia de tragédia. Cheia de arte. De todos os tipos de arte. 
Da mais simples travessa até aos monumentos da nossa história. 
A riqueza ali não é o ouro, nem sequer a pintura. É o amor.
O amor à arte também. 

Artistas de toda a Europa convergiram ali. E ali fizeram soar as letras e os acordes. No nosso mundo pequeno, os artistas de que nos orgulhamos, homens da cerâmica nobre, também fizeram sua aquela casa.

E de repente sinto-me pobre, porque pouco percebo de arte. Mas, apesar disso, sinto o bom gosto que um homem teve e quis reunir e proteger as obras de muitos séculos, debaixo da sua asa.

Sentei-me na sua cadeira. No seu escritório. Não senti o seu espírito apossar-se de mim. Senti a falta de, como ele, olhar para um quadro triste, de esperança e melancolia e trazê-lo comigo. 

Senti a falta de palavras. Daquelas com que escrevo agora. 

Falta de escrever as minha próprias palavras em vez de me reduzir a pequenas tiradas anti qualquer coisa.

É que não seja ser anti. Temos de ser por algo. Ser por... nós, pelo menos?

Visitar a "Casa dos Patudos", em Alpiarça. Casa de José Relvas. Homem de letras, de música. Político, Republicano. Homem que declarou a República como nossa. Que serviu o seu país cá e além-fronteiras. 
Deixou quadros e móveis e loiças. 
Deixou uma colecção. 
Mas não foi só isso que ele deixou ao povo. 
Deixou um dos seus amores.

Deixou uma grandeza que ainda não foi compreendida. 

"Não basta ter dinheiro ou ter bom gosto. Há que ter ambos para fazer o que ele fez."

Do homem, ficaram uns sapatos, uma bengala e um chapéu.

De Alpiarça, ficou um pôr-do-sol...

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