Às oito em ponto, Francisco de seu nome, começa a ladrar. É um
Retriever Labrador, a quem o cuidador ou melhor o que se imagina seu dono, pôs
o nome de um filho que ainda não teve.
Cisco, como o
alcunhei (porque antropomorfizar um cão com um "Chico" é coisa que
não faço), ladrava mais ou menos sempre à mesma hora. Às 8 horas da manhã.
Nunca me acordou,
nem incomodou. Mas quase podia acertar o relógio por ele. Se já vi galos cantar
em fusos horários diferentes daquele em que estão, naquele caso preciso, este
cão era melhor que relógio suíço.
Claro que sei que
esse ladrar se deve, apenas, à miúda de mini-saia, que ia passear o seu
cachorrinho de colo, às 8 horas da manhã, nos últimos momentos em que ainda tem
energia para o mundano.
Isto porque é mais
ou menos a hora em que retorna do seu trabalho nocturno de "anfitriã"
num dos bairros da alta lisboeta. De cabelo moreno, da cor do Cisco. Mas de tez
pálida, por vezes morenada pelo sol das férias que terminam e ausência de
trabalho.
Todas as manhãs,
quando chega, tenho o Cisco a avisar da sua chegada milagrosa. Vejo-a
arrastar-se elegantemente pela rua, com as suas pernas torneadas pelo exercício
constante de estar em pé, em cima de saltos, correndo e assistindo ao público
que pretende passar pelo seu jugo. Mas ali, aguenta-se em pé, nada mais.
Ao longe a cara
não é de poucos amigos, mas de nenhuns! A face maquilhada aguarda a almofada,
amante e confidente, para escorrem as lágrimas já sem rímel. A noite é amante,
nunca esposa. E o mesmo se aplica às mulheres.
Acabo sempre a
pensar que a devia importunar com um acidental encontro de manhã. Mas o
trabalho não perdoa e as contas não se pagam sozinhas.
Estou separado
dela por um mundo de horários diferentes.
Na melhor das
hipóteses seria uma relação à distância.
Eu no meio-dia.
Ela na meia-noite.
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