quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Copo do dia - Memórias de um dia livre

Olhei para o céu e não procurei a Terra. Nem procurei o destino da minha viagem. Busquei apenas o reflexo na janela, como se não visse mais ninguém há muito.
Faço uma viagem solitária na companhia de estranhos, quase como se estivesse sozinho. Mas estou só com os computadores portáteis que também fazem chamadas. Estou. Mas não estou.
Estou apenas de corpo. A mente viaja pelo desejo de abstracção. Procura nova residência, que o corpo não chega.
Perdi-me nos pensamentos. Os pés faziam o seu rumo e a cabeça ia passeando. O corpo perguntava-se pela comoção.
Não me imagino neste rumo. Nem o vejo senão nas palavras dos outros ditas com a inconsequência de quem sonham alto e a bom som.
Viver... Viver não cansa. Cansa lutar todos os dias. Fazer sentido dos caminhos perdidos que tomamos. Isso custa. Cansa. Desgasta. Faz olheiras. Tira o sono.
Faz parte do processo de viver. De reviver. Renovar.
Ainda procuro a casa onde me sinto bem. Procuro o canto onde me encanto. Procuro-me.
A minha história deixou de ser a aquela que imaginei, para ser aquela que nunca pensei.
Tudo deixou de estar certo. Passou a ser apenas, viver.
Disse-me que estava grávida. 2 meses... Oito semanas na contabilidade. Entre a euforia e o choque, nada disse. Com um olhar perdido na dimensão do sorriso, estava feliz e contente e mais assustado do que numa trincheira à espera do apito final.
Não era a primeira vez que passava por isto. Nem ela. Mas as perguntas óbvias escondem-se debaixo dos livros da mente que andam a ganhar pó num canto da secretária onde tudo escrevo. Ali, naquele recanto do cérebro que se diverte a fazer poemas e rimas infantis…
As perguntas fogem para ali, porque sabem que será o último sítio em que as procuro.
Pouca informação me adiantou. A sua mente corria numa passadeira da alma, fugindo do inevitável confronto com a realidade: pés inchados. Barriga gigante. Humores imprevistos e apetites inusitados.
Nada de chocolate. Ou café. Ou tabaco. Aliás o último nem problema era, não existia. Essa a verdadeira incoerência de quem vive a criação de uma vida.
É só juntar, uma semente, adubo e regar.

E daí tudo surge ao fim de uns valentes meses.



Sem comentários:

Enviar um comentário