sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Copo do dia - O perigo iminente

Como já não escrevo nem penso, apenas deixo que os dedos digam o que eu gostaria.
Tenho as mãos geladas. O dedo indicador está enregelado. Se o levantasse para facilmente acusar alguém de alguma coisa, cairía, com igual facilidade, no chão desfeito em mil impressões.

Os meus dedos acompanham o meu corpo. Acompanham os meus olhos nesta frente climática que me afasta de escrever.

Não, não acho que tenha perdido o jeito de me repetir por cada linha. Ou de ler o plágio que os autores fazem. Acho que simplesmente me sinto desalojado.

Adverbio as frases com facilidade. Tenho muitos mentes para dar.
A minha alma está anestesiada, pela tal falta de tecto, pela falta de calma. De propósito...

Aguento-me nas canetas, força nas pernetas, isto é o caos total. 

Penso na juventude perdida em frente a livros que tudo sabiam. Escritos por pessoas que sabiam ler, que sabiam perguntar. Agora os livros são escritos por quem tudo sabe. Pela razão absoluta e incontestável. E só por isso, estão errados.

Tenho frio...Pés e mãos. Cabeça quente, coração que só bate .
Já não me lembro de história. Nem do que jantei. 
Gostava que o Banco não embirrasse com o que nunca foi assunto.

Ao mesmo tempo gostava de ter o nome suficiente para que me chateassem com ofertas de papel moeda.

Leio um amigo que escreve a sua alma. Leio e sinto-me rico por o ter. E pobre por não escrever.

Perco-me no assunto. Nem sei qual é. Já não me lembro do que é estar meia hora sentado a escrever coisa alguma. 

Saber é um crime, já percebi. Não saber um crime maior. Crime capital é não perguntar.

Luto. Todos os dias. Na colina. Sempre a subir. E o topo dessa colina são os meus olhos, virados para o mundo.


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