Tenho em mim uma certa angústia pela vida que deixei para
trás. Aliás não a deixei… Simplesmente desapareceu.
Deixei de fazer certas coisas e dediquei-me a outras. Deixei
e lidar com pessoas. Passei apenas a lidar com ideias. E dei-me conta disso com
um gesto que não fiz perante uma criatura inocente.
No meio de nenhures, um cachorro corre na tua direcção, já
grandinho, tão ameaçador como uma bola de algodão.
Agarra-se a ti na esperança
de quereres brincar.
E tu, olhas para ele, pensas mil e uma coisas, apetece-te
dar-lhe a mão, brincar com ele e … nada.
Não fazes nada. A não sentires-te culpado pelo não teres
feito.
Como cheguei a este ponto.
A culpa é das pessoas. E de mim
próprio que ainda me incluo nesse grupo.
Vivemos demasiado uns para os outros.
Demasiados egoístas e virados para querermos tudo sem nada darmos.
E depois, um
cachorro que pede uma festa, fazendo uma festa, nada obtém.
Sim, sinto-me chocado comigo. Com a minha falta de empatia
ou excesso de sociopatia, se é possível haver excesso no que não é bom.
Questiono-me por onde anda a minha alma. Aquela que me fazia
arriscar um pouco mais.
Se calhar ficou-se pelos encontros à quinta-feira.
Enclausurada num momento de liberdade semanal.
E no resto dos dias, lido com o
mundo que perde o rumo, como eu o perdi.
Onde estás tu?
Pergunto-me todos os dias. Não se trata da
banalidade questionada a um espelho ou o espaço físico onde os pés assentam.
No universo, no meio de tudo, no espaço-tempo, onde estou eu?
Lido todos os dias com a violência de trabalhar no meio de
seres que se digladiam para fazer o seu pior, fazendo o seu melhor.
Tento
manter-me à parte desse conflito pouco latente. Deixo de sentir.
É isso!
Deixei de
sentir.
É a defesa que criei.
Não há raiva, nem amor, nem desejo. Há apenas a
sobrevivência das 9 às 17 ou na minha realidade das 9 às 19.
Olho para os jornais, para as televisões e vejo o mesmo
acontecer.
Estamos rodeados das mesmas pessoas, com nomes diferentes.
Todos querem ser os maiores sem terem o mérito para tal coisa. Todos querem ser…
Custa-me voltar a sentir. E enquanto termino o que escrevo
aqui é o que acontece. Demoro meio milhar de palavras a dizer que quero viver.
Quero a dor, a saudade, mesmo a raiva e a tristeza. Quero voltar a sentir tudo.
Com a intensidade que tinha antes.
Sim. Não se volta. Não há retorno. Há outros caminhos.
Mas a essência de tudo continua no mesmo sítio.
No mesmo
coração. Apenas tem de ganhar as mãos e a cabeça.
Tem de perder o medo de fazer
algo que seja sentir.
Arriscar fazer uma festa a um cachorro que quer brincar.
Esse acto tão perigoso.
Um que te faz ser humano.
Que te faz amar.
E perceber
que por mais que o mundo esteja errado, tu estás mais ainda porque te deixaste
conquistar.
Porque é naquele instante que percebes que viver não é que tens
feito, mas apenas uma aparência desse acto escolhido.
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