Sou um tipo bem-disposto. Gosto
de sorrir. Mas finjo sorrir como quem respira. Gosto tão simplesmente de ver os
outros felizes, na ausência dessa capacidade.
Mas tudo isso é uma forma simples
como existo. Sempre em compensação. Sempre a evitar o caminho do confronto.
Uso o Humor como uma Maça de
guerra.
E uso-o como almofada. É um
colete salva-vidas furado.
Uma camisa que visto de manhã,
que já está gasta e esforçada no fim do dia.
O humor é uma parede, quem impede
de sofrer mais com as dores que não são dores, mas apenas Vida.
Ouvi hoje, numa conversa misturada
nos transportes públicos, que há pessoas que fingem estar bem com a vida, para
que a sua vida passe sem questões.
Creio que faço o mesmo. Só não
finjo tão bem…
Disfarço.
Num esforço de auto-reflexão,
evitando a piada fácil quem me afasta, procurei nos confins das memórias que
entendo esconder, mas não esquecer, o último momento em que amei.
Terá sido aquele momento em que
foste para acama com um livro para o lermos, juntos?
Ou quando chego à cama e tu meia
a dormir me abraçavas?
Cada vez que discutíamos a cor de
uma coisa qualquer, desde um cortinado até ao prato decorativo que estava em
cima da mesa… Ou nunca esteve…
Cada vez que fazíamos as pazes,
depois dessas trocas.
Ou simplesmente o tempo que
passava a olhar para ti, vestida ou nua, com os mesmos olhos, com as mesmas
formas, abraçadas nas minhas mãos, envoltas na minha boca, pousadas nos braços
que se esticavam quarto e meio.
Deixavas-me embalar assim, à
distância com a música que passava no
rádio, o corpo que não tocava.
Dançavas na minha mente, com os
passo mais sublimes, tocando o chão que se levantava para te apoiar.
E…
Chamavas-me “parvinho”, com cada
piada com a qual me tentava ajustar à realidade que mudou. Era um parvinho
doce. Um carinho misturado com
advertência.
Fiquei eternamente nesse estado,
quando simplesmente partiste naquele dia.
À minha volta diziam que parecia
estar a lidar muito bem com a situação. Acho que quem olhava, não via. E achava
anormal tal situação. O lidar bem com isso é diferencial. Não se ajusta ao
ritmo da sociedade homogénea.
Para o mundo, o que se passou é
sempre uma tragédia em três actos. E com muito azar em quatro.
Honestamente, agora sorrio. Finjo
estar onde não estou. Agradeço o sorriso à piada seca que enche o desconforto
do silêncio.
Assento o corpo, esperando
assentar as ideias.
5 minutos ou dez anos depois de
ti, ainda me abraças à noite, quando chego à cama.
É um abraço menos quente…Mas
ainda é.
Ainda lá estás.
E eu finjo-o também.
Sem comentários:
Enviar um comentário