Delicada solidão
Vejo-te passar, confesso,
Nas ruas do meu sentir.
Cada vez que os meus olhos em ti tocam,
Quebra-se o escudo que te rodeia,
Pelo instante da flor que corre.
Tida girassol que procura,
O Sol que alumia a esperança.
Vejo-te de olhar baixo,
Percorrendo as pedras da calçada,
Como uma mãe cuidadosa,
Que evita pisar o chão,
Amostra de nuvem delicada.
Olhar perdido no tempo,
Relembrando o caminho que não é o que pisas.
Movimentos sóbrios, contidos pela delicadeza,
Com que cada passo se afasta do anterior,
Como uma pétala que se arrebata inteira,
Da flor que caminha…
Sim, confesso.
Vejo-te passar todos os dias em que estou perto,
E mesmo naqueles em que não estou.
Aguardo que a tua delicada solidão passe,
Se deixe ir com o vento que enlaça os teus cabelos.
Espero um dia ver-te a olhar em frente,
Olhares para mim, mesmo longe,
Em que o teu caminhar delicado,
Seja ainda assim, apenas passos num trilho,
Em vez da consonância triste de um destino sem fim.
Um dia destes apago da memória esse caminhar,
Apago com uma flor ou com a voz,
Até as pedras da calçada merecem ser caminhadas,
Com Alegria, pois é o seu destino sustentarem,
E nosso, o futuro.
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