Balada profunda
Bolhas com ar gasto esvoaçam em meu redor.
Ascendem com vigor, à velocidade de fuga.
Olho para elas, livres dos constrangimentos de um pulmão,
De uma boca que exala,
De uma palavra contida,
De um grito perdido por entre o mar turbulento.
Apenas uma canção monocórdica.
Uma balada profunda.
Os olhos ardem-me, cheios de sal sem lágrimas.
Queima a retina, obscurecem a imagem até ao ponto em que a
vida é um borrão de tinta pintada por mão divina.
Mundo agreste dentro deste mundo agreste, dentro uma vida
agreste, nunca sonhada em forma outra que não agridoce.
Imito as bolhas e esvoaço. Embato contra as paredes
aguçadas, contra um fundo movediço,
Perco a referência e o norte.
Perco-me no fundo de um mar…
E na minha mente ressoa apenas
Uma balada profunda.
Continuo, apesar da dor.
Um pulso torcido pela vontade esquecida de alguém que te
quer, nem sabe como.
A visão aterrorizada de um polvo que foge, curioso, temerário,
ciente a desvantagem de ser vivo, à mão.
Os tentáculos que se espalham pelo teu braço, que se
enroscam e acabam por te asfixiar…
Não é o invertebrado marinho…
São mesmo os vertebrados voadores, inflados, egos mínimos
com aspirações…
E eu?
Perco-me no trajecto da descrença.
Evito o pensamento, a camuflagem da razão, removo o fim da
minha voz calada.
Regulo a respiração, encho os pulmões pronto a gritar,
apenas para exalar mais uma vez,
A balada profunda.
Aquela que me faz sonhar, aquela que ressoa no fundo de um
mar.
Aquela que somos, quando queremos flutuar neste mundo.
Aquela balada que somos, quando te peço um beijo,
Para ter ar para mais uma palavra.
Mais uma canção,
Mais uma… Balada.
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