Um amigo que parte...
É quase meia-noite.
É quase meia-noite.
A vida começa de novo,
Agora que a lua se põe antes de tempo,
Dando lugar ao que ainda não devia lá estar.
Bem sei que a imaginação me prega esta partida.
Mas é uma de boa natureza.
Pois o coração só se deve lembrar sob luz,
E nunca na escusa existência atrás de uma memória.
Conto agora, enquanto o ponteiro passeia pela face,
A contabilidade de uma vida anual.
Encaro as perdas inaceitáveis, com os ganhos normais.
A excepcionalidade dos momentos,
Com a cruel distância que se criou.
Como num ábaco emocional, conto.
Todas as lágrimas vezes todos os momentos de raiva, a raiz
quadrada ou mesmo cúbica da tristeza…
A alegria elevada à décima potência, a criação investida com
uma taxa de juro generosa,
Livre de impostos governamentais, imposta apenas a vontade
de criar.
Penso nas páginas que escrevi.
Nos poemas que me deixaram.
No coração que ainda fica.
Depois de tudo somado.
Este momento anual serve para isso.
Para reformular a vida que tivemos.
Para nos lembrarmos que nascemos sempre em dias diversos ao
em que nascemos.
Que os anos que carregamos, não constam de nenhum cartão,
Apenas do olhar que temos, quando olhamos para quem queremos
ser.
Sim, a meia-noite solarenga aproxima-se.
Depois fecho os olhos para pensar em ti.
Em ti que partiste, meu velho.
Em ti, que levas contigo tudo o que fui.
Mas que nunca levas o que posso ser, hoje!
Obrigado, velho amigo.
Um abraço.
Manda saudades minhas, aos outros que já se passaram,
Neste vosso céu da minha existência!
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