O tempo é para mim uma proposição completamente diferente.
Lembro-me como se fosse ontem de coisas de há anos.
Mas não me lembro de hoje,
Que só tem importância por ser um meio caminho para amanhã.
O tempo, evita-me.
Não quer passar, embora isso seja relativo.
Se calhar zangou-se porque não conto os minutos,
Apenas os instantes que as minhas mãos tocaram.
Conto as memórias que teimam.
E as vezes em que o espelho me desafiou,
a criar novos momentos.
Tempo.
Um viajante que nos teima em não deixar.
Talvez porque me sinto preso ao corpo,
Ou a um amanhã que foi construído ontem.
Cada vez que olho para ti,
Presença desconhecida nesse refletor de almas,
Vejo nos teus olhos, que são os meus,
O tempo que fica para deixar de passar.
E aí chego, sem partir, ao momento crucial.
Descubro, simplesmente, que me construo nas memórias de uma
noite chuvosa.
De um beijo fortuito,
De um bombom com sabor a vida,
De uma pessoa que mudou, quando chegou,
E que me mudou quando partiu.
Ontem, que para mim foi há pouco,
Vi no espelho proverbial o caminho que fiz.
E olhei para ele.
E vi o caminho a fazer.
Assente nas palavras de outros,
Na crença que se constrói e na imaginação onde me veem.
E…
Lembro uma noite chuvosa,
Um beijo inquieto,
E onde eles me trouxeram.
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